Entre o cinismo e a burrice

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Por Gustavo Fontana Pedrollo*

A classe média brasileira, achando-se super politizada e honesta, encheu as ruas pedindo o impeachment da Presidente, a pretexto de combater a corrupção. Foi alertada durante meses de que Dilma era honesta e o impeachment seria uma vitória dos corruptos e do fisiologismo – mas, manipulada descaradamente pela mídia, preferiu os bordões das manchetes à complexidade da realidade. Preferiu criar um inimigo, o PT, e acreditar que com sua destruição, atingiria o maravilhoso nirvana da vida sem corrupção. E por isso achou por bem não analisar a fundo se havia crime de responsabilidade, exigido pela Constituição. Afinal, era preciso destruir o inimigo para limpar o país, não sendo necessário entrar nesses detalhes.

Com apenas um dia de governo, fica patente, pelo ministério escolhido por Temer, que de fato o impeachment foi apenas a tomada do poder por um grupo de políticos fisiológicos, mediante uma articulação política de bastidores apoiada pela mídia, pelos manipulados pela mídia que saíram às ruas, pela elite econômica e pelos derrotados da eleição, com a omissão obsequiosa do STF. Tudo isso para que o projeto dos derrotados nas urnas chegasse ao poder, e para que uma parte dos implicados na corrupção tentasse livrar a cara. O projeto político do governo golpista interino é clara e precisamente o projeto derrotado nas urnas em 2014, e os indiciados nas operações contra a corrupção ocupam diversos ministérios.

Então, diante da constatação inevitável da própria burrice, para alguns, ou do próprio cinismo, para outros, algumas pessoas vêm às redes sociais dizer que também isso é culpa do PT, pois Temer só está aí por que era vice de Dilma. Ora, Temer foi escolhido para ser vice. Queriam que se soubesse de antemão que ele daria um golpe e se tornaria presidente?

Depois de escolherem deixar Temer na presidência – pois esse era o corolário inevitável do impeachment -, querem culpar os outros pela própria decisão? Ou foram burros o suficiente para achar que derrubariam todo mundo?

Podem escolher.

* Gustavo Fontana Pedrollo é Procurador Federal (AGU), mestre em Instituições Jurídico-Políticas pela UFSC e Diretor-Presidente da Associação Advogadas e Advogados Públicos para a Democracia.

 

11 comentários sobre “Entre o cinismo e a burrice

  1. Esses “inocentes” acharam que usariam o Cunha para tirar Dilma e depois tirariam ele e o Temer e, assim o sti (supremo tribunal da injustiça) pediria Eleições Gerais.

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    • Também sou elite e graças a muito estudo e muita dedicação, não sou burra!!! Não se pode viver num mundinho próprio de “país das maravilhas”, cercado de ignorância, pobreza, humilhações, descasos e vontades e desejos reprimidos pela grande massa. Um dia a casa cai, literalmente. E a história já nos mostrou muito bem isso!!! Viva o Brasil, o país da mentalidade pequena!!!

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  3. Bem no início de tudo, eram tantos opositores ao governo à minha volta que eu parecia ilhada. Na dificuldade em argumentar tête-à-tête, quando os colegas e familiares ou fugiam do assunto ou respondiam aos berros (sem condição de diálogo), pus-me a utilizar os Blogs da Internet nos quais aprendi a confiar (sempre costumo fazer uma checagem cuidadosa. Odeio compartilhar notícia falsa, só por aparentemente ser alinhada com o que penso. Se diz algo absurdo demais já desconfio, pois fazem isso “do outro lado da arquibancada” também). E fiz o que achei que devia ser feito. Argumentações firmes, coerentes, mas sem baixarias ou mesmo paixões (essa guardei dentro do peito, jamais morrerá). Fui procurando minha turma, já que parecia tão difícil encontrá-la, posto que os movimentos sociais estivessem sempre ao meu lado, coerentes e leais ao que esperam de um governo e políticas públicas. Tínhamos tanto a reivindicar à Dilma e, de repente, aparecem movimentos dispostos a simplesmente tirarem-na do poder, sem diálogo, sem reivindicação, sem pauta de negociação com um governo legitimamente eleito. Que movimentos populares eram esses, de onde surgiu, de repente, tanta gente que não se articula pra nada, de repente, para fazer passeatas monstruosas, panelaços ruidosos? Só podia haver alguma coisa muito errada. E fui montando os quebra cabeças, e falando sobre eles em sites, blogs, o tempo todo. Cobrando nossa reação o tempo todo. Quando iríamos para as ruas? Ficaríamos, assim, meio acuados? Na falta de talento e desejo de liderar movimentos, mantive-me o tempo todo, junto a outros com o mesmo perfil que eu, acendendo a centelha do inconformismo contra uma articulação política, jurídica, empresarial e midiática, que conseguiu transformar o descontentamento popular dos não politizados ou que simplesmente têm uma visão política contrária à esquerda, em reivindicações, aparentemente da sociedade, por Impeachment. Tentaram convencer que Dilma não teria apoio popular algum, e muita gente acreditou, até quem não tinha interesse em Impeachment, mas também queria melhorias. Mas estas poderiam vir com Temer? Com Cunha? Era o que tentávamos argumentar, sem grande sucesso. Mas as etapas do “Impeachment” foram deixando claro as manobras do que poderia ser caracterizado como Golpe (não apenas o motivo frágil e polêmico para o Impeachment, mas todas as articulações orquestradas pelos “poderes” acima citados). Agora, nós que defendemos o Estado Democrático de Direito, estamos muito mais articulados e mais fortes. Não reconhecemos um governo golpista, que está tentando impor uma agenda derrotada nas urnas. Temer vem dizendo a que veio, e as perspectivas não são nada boas, objetivamente. Como eu dizia desde o início, mesmo quando os movimentos da Internet contra o Impeachment estavam ainda em estado embrionário, poderiam acabar conseguindo afastar Dilma Rousseff ou não. Mas nada acontecerá sem dor. Muita dor. A luta só começou, mas já dá pra ver como será bonita. Pra não doer tanto.

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  4. A classe média brasileira é profundamente ignorante. Ignora tudo, literalmente, menos os seus interesses mais próximos, aquilo que gira ao redor de seu próprio umbigo, como por exemplo o interesse de ter novamente 40 milhões de miseráveis a sua disposição como mão de obra barata e objeto de fortuitas “caridades” que fortalecem o ego das madames. Estúpida e inconsequente, pagará um alto preço por sua tola fantasia de pato da Fiesp e da Febraban. Espero sinceramente que seja varrida para a miséria e desapareça de cena, junto com a globo, abrindo espaço para que o Brasil volte a ter um futuro.

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