Faltam elegância e fidalguia

ITAMAR-TEMER

Por Denise Assis

Há uma crise política no país. Isto, no entanto, não justifica que sejam esquecidos os princípios de civilidade e  elegância.

Não há motivo para que o vice-presidente da República, que repudiou pelos jornais da imprensa estrangeira o papel de “golpista”, porte-se como um conspirador às escâncaras. E se assim não fosse, como justificar a feira livre em que transformou cargos que por direito ainda não são seus?

Já há ministros nomeados para o governo que ele considera já sob seu comando, mas que por todos os ritos, ainda não o é. Fica difícil desmentir a conspiração, quando sobra desfaçatez e falta ética, para dizer o mínimo.

Inevitável não estabelecer um comparativo com a postura do ex-presidente Itamar Franco.

Desde praticamente a posse, ele, na condição de vice, se desentendeu com o colega de chapa, Fernando Collor de Melo. Manteve discrição sobre as desavenças e, quando o processo contra Collor desembocou na votação do Impeachment, adotou uma postura de recato.

Aconselhado por Ulysses Guimarães, a quem Admirava e respeitava, refugiou-se em sua terra natal, Juiz de Fora, e por lá ficou entocado, à espera do desfecho.

Escalado para arrancar dele alguma declaração a respeito do que estava por vir, um batalhão de jornalistas para lá se deslocou, hospedando-se no Hotel Ritz, um dos melhores da cidade. Eu engrossava a comitiva da imprensa, e levava a vantagem de ter estudado na cidade e ter amigos entre os que o cercavam.

Enquanto os demais colegas ligavam para empresários e políticos regionais influentes, eu fui direto ao seu sítio. Lá, fui recebida pelo caseiro que, muito ressabiado, pálido e hesitante, me “garantia” que o patrão não esteve por lá. Já estava disposta a me deslocar para a fazenda de sua ex-mulher, outro refúgio possível, quando um dos integrantes do grupo de Itamar me deu uma dica: ‘procure fulano, que estudou com ele no Grambery. Se ele não souber…’

Relutei. Estava fácil demais. Na certa era um despiste. Mas, de incerto por incerto, não perderia nada indo até lá, à tardinha. Seu escritório era vizinho ao que o ex-presidente mantinha no Centro da cidade. Como eu suspeitava, nada. Conversa macia, escorrega daqui, escorrega dali, a penumbra começou a tomar a sala. Em dado momento, o meu anfitrião pediu para interromper a conversa e acender a luz.

O fotógrafo que me acompanhava, Solano Goldfarb, assistia mudo e sonolento pela falta do que fazer ali e levou um susto quando eu gritei: “vambora!”. Mal conseguia acompanhar meus passos escada abaixo, com o pesado equipamento.

Naquele momento eu me dei conta de que se o Itamar estava no sítio, na certa teria que estar com as luzes acesas. Rumamos para o sítio. Lá, mal chegamos e já vislumbramos a sombra do seu topete característico projetada sobre o vidro fosco da janela da sala. Bati palmas. Os cachorros começaram a latir. Os da casa, e os dos vizinhos. Marcelo Siqueira, um dos seus fiéis amigos, veio até o portão. “O Itamar pediu para você ir embora imediatamente, porque com a cachorrada latindo, na certa já chamou a atenção da vizinhança e todos vão saber que ele está aqui. E tudo o que ele não pode agora é aparecer, dar idéia de que está conspirando. Ele jamais faria isto.”

Pois eu, da minha parte, jamais arredaria o pé dali. “Por mim os cães vão morrer de tanto latir”.

Não havia o que fazer senão me mandar entrar. Discreto, de calça social, camisa azul, Itamar falou comigo. Explicou o que Marcelo já havia me adiantado. O momento era grave. Havia um rito a seguir. Não queria expor seus pensamentos ou tampouco dar a entender que montava equipe. A votação aconteceria no dia seguinte. Dali ele pegaria um avião para Brasília, onde acompanharia a votação.

Não arredei pé. Consegui convencê-lo a falar do seu estilo, montei um perfil do consumidor, colocando a Casa Miami, onde ele comprava as suas roupas, no mapa do consumo. Itamar pediu que gostaria de figurar na reportagem como um homem simples, um mineiro de hábitos modestos, para fazer contraste “com o estilo imperial”, do presidente Collor. Combinamos de fazer a foto da capa que circularia no dia seguinte (caso o impeachment fosse aprovado, como foi), na manhã do dia seguinte, antes do seu embarque, para aproveitar a luz.

O resto, todos já sabem. Itamar assumiu a presidência como o que o Congresso decidiu. A revista Manchete circulou exibindo-o de camisa social e sorriso contido. Nada de sustos, golpes, traições. Soube aguardar o seu momento com fidalguia, sem afrontar os que dele discordavam, ou quem ainda estava no poder. Exerceu o governo de forma eficiente, austera. Consolidou a democracia, fazendo o seu sucessor e deixou o cargo com alto índice de popularidade.

Enquanto isto, Temer aguarda ansioso na porta do gabinete vagar a cadeira que não lhe pertence. O mínimo de discrição não lhe faria mal.

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