O dia seguinte

camara dos deputados

Por Gisele Cittadino

Depois de uma ressaca imensa, mas que foi devidamente curtida na companhia de muitos amigos queridos e igualmente entristecidos, algumas considerações sobre o indigno e infame – ou histórico, segundo a Rede Globo – dia 17 de abril:

a) uma diversão ver a cara dos coxinhas ao serem apresentados aos seus companheiros, aqueles que julgam ser os salvadores da pátria, os ilustres deputados da Câmara Federal. Conheceram, finalmente, os 300 picaretas de quem Lula reclamava e que serão a base “ética” do corretíssimo governo de Michel Temer;

b) no futuro, será tão difícil encontrar os apoiadores do golpe da mesma forma como não encontramos mais um único eleitor de Collor. Parece até que morreram todos;

c) a imprensa brasileira, ao longo do dia 18, deu menos importância à gravidade do fato político de ontem – a admissibilidade do processo de impeachment pela Câmara – do que a imprensa internacional. O PIG mostra foto de Cunha e Renan, sorridentes, juntos em um sofá, na entrega do processo da Câmara ao Senado. Tudo muito leve, desprovido de importância, coisinha normal. Estão apenas retirando do poder uma pessoa eleita pelo voto de 54 milhões de brasileiros, cujo crime de responsabilidade está longe de ser provado;

d) o ódio de classe é tão intenso, no entanto, que Eduardo Cunha e os picaretas assumem o papel de aliados sem nenhuma dificuldade. Nessa hora, a corrupção deixa de ser problema;

e) tudo indica que, ao invés de longas férias em Maricá, Michel Temer vai trabalhar no Palácio do Planalto. Pretende governar sem a legitimidade do voto popular, sem o apoio dos movimentos sociais, sustentado por uma base política corrupta, e com o objetivo de cortar direitos sociais, enxugar a máquina estatal e desenvolver uma política econômica neoliberal. Tenho a impressão que será divertidíssimo voltar a ser oposição;

f) não esperem nada, rigorosamente nada, de um Supremo Tribunal Federal integrado por ministros acoelhados e vaidosos. Essa trágica e paradoxal mistura entre covardia e egos inflados arrebentou a jurisdição constitucional e manteve o STF no lugar que ele sempre ocupou na história brasileira: aquele que se submete aos interesses da elite, mesmo que, para isso, seja necessário rasgar a Constituição;

g) teremos tempos animados daqui para a frente. Voltaremos, depois de alguns anos, a fazer o que sempre fizemos muito bem: oposição às elites políticas tradicionais. Além disso, temos narrativas e argumentos, sabemos que estamos do lado correto, mantivemos a capacidade de mobilizar multidões (como fizemos magnificamente no último mês), os movimentos sociais organizados estão ao nosso lado e teremos eleições em 2016 e 2018. Logo, muito trabalho pela frente;

h) finalmente, um conselho aos adversários: haverá luta e resistência política e jurídica, porque vamos atuar e nos defender em todas as instâncias, sem nenhuma intenção de recorrer à guerra, apesar de toda a violência intrínseca ao golpe parlamentar do dia 17. Mas, não tentem prender Lula. Não pensem que será possível impetrar um golpe em 2016 e igualmente destruir a candidatura do PT para 2018. Caso isso aconteça, será imensa a violência que recairá sobre o país. Ao final dela, seremos todos derrotados.

Um comentário sobre “O dia seguinte

  1. Parabéns Gisele pelo texto e pelo alerta, nós não estamos sós, e vamos lutar por todo o sempre, por dias melhores para todos, apesar de nossa Casa Grande. De nossa Imprensa corrupta, do nosso Congresso de bandidos e de nosso STF acovardado.
    #VivaLula
    #VivaDilma
    #VivaAdemocracia assim minuscula mesmo pois ainda não a conhecemos!

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