Economia e política: as razões do golpe!

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Por Rodrigo Botelho Campos

A política econômica do primeiro mandato de Dilma (Mantega) adotou ações anticíclicas para mitigar o impacto da crise internacional (que revela o fim do “superciclo das comodities”), a partir de pressões principalmente da indústria brasileira que tem o agravante conjuntural de ter que enfrentar a competição com os fornecedores da China, a “fábrica do planeta”.

A equipe econômica agiu nas variáveis que perpassam toda a economia visando baratear custos para combater a inflação, aumentar as exportações e manter o crescimento: reduziu o custo do dinheiro (SELIC) (muitos rentistas foram para a oposição), o custo da energia elétrica (muitos acionistas das empresas de energia foram para a oposição), o custo dos combustíveis (muitos acionistas da Petrobras foram para a oposição), adotou política cambial com menos intervenção do BACEN para desvalorizar o real (na onda da valorização do dólar nos EUA) (muitos turistas que frequentam Miami e Orlando foram para a oposição), subsidiou empréstimos do BNDES e adotou renúncias fiscais (muitos comentaristas, analistas econômicos e asseclas formadores de opinião foram para a oposição por serem favoráveis às “soluções de mercado” e não ao subsídio e ao “intervencionismo estatal”).

Estima-se que estas ações sobrecarregaram o Tesouro Nacional em R$500 bilhões. Afinal, “não existe almoço de graça”. Em economia não há neutralidade: sempre alguém ganha, sempre alguém perde. Já ouviram falar em “luta de classes”. O capitalismo ainda é o mesmo, com mais sofisticação. Quando chegou o segundo mandato Dilma avisou: o dinheiro acabou. E inverteu os sinais da política econômica. A oposição “politizou” o assunto chamando de estelionato eleitoral, começando o purgatório do qual não saímos ainda. Dilma agiu correto, afinal “Na política pode se perder tudo, menos a parada” (adoro ditados populares).

Sejamos justos: a política anticíclica começou muito antes da sua campanha à reeleição e por pressão dos empresários. Se ela capitalizou eleitoralmente era um direito dela. Levy assumiu para cumprir algumas missões. Uma: realismo tarifário na energia elétrica e nos combustíveis, para recompor o caixa das empresas. Outras: fim dos subsídios do BNDES e diminuição das renúncias fiscais. Cumpriu bem, mercê de ter ficado inconcluso o ajuste fiscal proposto originalmente para as contas públicas. Como diz Delfim Neto, capitalista brasileiro gosta de “mamar nas tetas do governo”.

Quando da adoção das políticas anticíclicas as empresas se locupletaram, aumentaram seus lucros num mercado com demanda intensa e não transferiram os ganhos para os preços visando combater a inflação (suspeito que o governo foi ingênuo nesta ação ao acreditar na “conciliação de classes”). Aí veio o pior: quando os empresários perderam as tetas foram para a oposição, vide FIESP. E se juntaram a todos aqueles que lá já estavam. As mudanças de sinais na política econômica vai gerando sucessivas levas de oposicionistas.

O que os unifica ao longo do tempo? A ação política, pilotada por Aécio “udenista” Neves, que radicalizou ao não aceitar perder por pouco, retomou a tática de fazer o governo “pingar sangue” (já fracassada quando usada contra Lula) e fomentou uma crise política, ética e/ou moral (não conseguem diferenciar) a partir da exploração fundamentalmente das denúncias de corrupção no governo que historicamente mais as apurou.

Dilma avisou quando a Lava Jato iniciou: o país vai mudar. O ódio ao PT vai se irradiando a partir dos polos PSDB/partidos aliados, imprensa oligárquica e setores empresariais, todos ideologicamente liberais, conservadores ou proto-fascistas. Mas a agressividade vai piorar porque passam a explorar politicamente os níveis inflacionários crescentes que tocam o ponto mais sensível do corpo, o bolso.

Prossigamos analisando o fenômeno que é a inflação. Os nossos governos garantiram o aumento real do salário mínimo, a correção monetária da aposentadoria, reduziram os tributos sobre a cesta básica e consolidaram diversas políticas públicas de viés distributivista (as macro políticas vitoriosas Bolsa Família, PRONAF, Luz para Todos, BPC, até as micro políticas vitoriosas de atenção aos pescadores, indenização para portadores de hanseníase, etc.).

Tudo isto para criar “uma ampla sociedade de consumo de massas”, de viés humanista, inclusivo e potencializador das forças produtivas capitalistas, proposto no programa vitorioso de Lula em 2002 (ampliar a malfadada “classe média” do “país de classe média”). (Obs.: “Todo pequeno burguês quer ser um grande burguês” e quando frustram seus sonhos muitos vão para a oposição. Dilma passa a ser tratada como a vilã, a responsável até pelos espirros gripais).

Observem que as taxas inflacionárias são mais altas exatamente em alimentos, serviços e itens de consumo. O empresário percebendo que há demanda vai aos poucos aumentando seus preços para melhorar suas margens e aumentar seus lucros. Isto é inflação (e, quando passam de um ponto, muitos consumidores vão para a oposição).

O Brasil foi ficando caro, que não se confunde com níveis de taxas de inflação, já que se mantiveram razoavelmente baixas durante anos. Quando o governo (Levy) precisou realinhar os preços relativos (via realismo tarifário e recomposição da SELIC) encontrou uma inflação subindo pelo fenômeno do aumento da renda e do consumo. Solução apresentada pelo governo federal: sem afetar as políticas sociais (compromisso histórico do PT), promover a inversão dos sinais da política econômica com ajuste fiscal para reduzir o gasto público e aumentar a SELIC, ambos para reduzir a demanda agregada (PIB), principalmente o consumo, para forçar o empresário a baixar seus preços (reduzindo a inflação).

Como estes reagem (efeitos colaterais)? Promovem o desemprego para reduzir custos, manter seus lucros e adiar a redução dos preços, além de reduzirem investimentos por estarem com expectativas pessimistas. Havendo ainda algum consumo, num primeiro momento, até aumentam o preço para compensar a diminuição do volume de venda que se inicia.

Por isto as políticas econômicas contracionistas têm um “delay” (retardo) para serem consequentes, gerarem resultado, ou seja, os empresários reduzirem os preços e gerar queda da inflação. Há uma estimativa que o aumento da SELIC só gera impacto 6(seis) meses depois.

Eu sempre achei que seria um ajuste forte de dois anos (2015/16), a inflação cairia e inverteríamos os sinais a partir de um novo ciclo de redução da SELIC. Em 2017/18, por desdobramento, teríamos a retomada da atividade econômica.

Em que condições? Os preços relativos realinhados, inflação voltando para os limites da meta, exportação aumentando em função do câmbio (insisto que muito mais pela política econômica americana do que por nossa política cambial propriamente dita), os rentistas com “burras” de dinheiro aplicado, o mercado ávido por consumir depois de dois anos de contração, dentre outros (Lei de Repatriação, por exemplo).

Por isto Lula pediu 6 (seis) meses de trégua para arrumar a economia.

Por isto a oposição quer nos golpear.

Porque a economia vai melhorar e quem estiver no comando do governo vai capitalizar politicamente e se fortalecer para 2018.

“É a economia, estúpido!”.

Por isto é fundamental derrotar os golpes que se anunciam a começar da derrota do impeachment (batalha de uma longa guerra) que, sem crime, é golpe!

Dilma e Lula farão um governo recomposto para, superada a crise econômica, reelegermos o bloco democrático e popular liderado pelo PT que precisa de pelo menos mais dois mandatos para concluirmos a instalação, institucionalização e consolidação do “Estado de bem estar social” no Brasil. Vamos adiante!

Um comentário sobre “Economia e política: as razões do golpe!

  1. Em um cenário de derrota do impedimento será que vai ser possível governar? Com este congresso?
    Como a presidenta vai ter que ter seu ”coração valente” !

    Curtir

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