Total recall, ou: quem será o futuro vingador do Brasil?

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Por Rogerio Dultra dos Santos

O futuro pode ser constituído por um jogo de aparências. O governo Dilma, apesar das vitórias contra a onda do impeachment – que varreu todo o ano de 2015 para debaixo do tapete – ainda não saiu da defensiva. E mesmo com a chegada de ministros importantes para alavancar a estratégia política, como é o caso de Jacquer Wagner e Ricardo Berzoini, não há sinal de um contra-ataque à dissolução das instituições ligadas ao sistema de justiça: setores da PF, da Justiça Federal  e do MPF sucumbem à oligarquização, ao corporativismo e à politicagem em parceria não republicana com os meios de comunicação.

O Ministério da Justiça, aparentemente o órgão “responsável” pelo andamento correto do sistema, espera que tudo se ajeite como num passe de mágica. A presidente resiste, como sempre fez, mas não abre espaço para que se construa uma estratégia política consistente – isto apesar das acusações recorrentes da oposição de que “aparelha” a máquina do Estado. Se há “aparelhamento”, não se percebem seus frutos, em forma de reorientação das políticas de algumas instituições, que fritam o próprio governo.

Também parece que a ficha de que há uma guerra contra o governo e contra o PT só cai para quem vai sendo acusado ou preso. Aconteceu com Hugo Chávez na Venezuela, que entendeu que deveria estabelecer uma estratégia contra os meios de comunicação e contra os setores golpistas da oposição somente quando sofreu um golpe de Estado por algumas horas bem sucedido. Lula, aos poucos, aparenta atinar que deve se defender do sistema policial e jurídico que ajudou a construir e prover. Mas, absorto em sua defesa – e, obviamente, na defesa de um futuro para o partido – é um general paralisado em uma batalha também defensiva.

Na aparência justo e equanime, o sistema de justiça vem aos poucos provando que pode criminalizar quem quiser e pelo que inventar. No fundo, sempre se soube disto, mas quando os pobres deixam de ser alvos usuais, o espanto  se transforma em aprovação entusiasmada com a ajuda da imprensa: “finalmente” agora são os empresários e políticos corruptos que estão atrás das grades. Para as classes médias que sentem identidade existencial com juízes e procuradores  jovens, brancos e ativos, seus “filhos” diletos, as regras do jogo parecem continuar intocáveis.

Dilma – cuja pele ainda não foi atingida pelo golpe nem pelo processo criminal, como Chávez e Lula – aparenta crer no sistema que o PT ajudou a cevar e azeitar. Dá ares de que concebe ser necessário apenas resistir. Vai, eventualmente, dar ouvidos a soluções técnicas, mas não dará o tom de ataque ou substituirá aqueles que podem mover a máquina em outra direção que não a da apatia ou defesa. E aí, pela inércia, o governo parece não chegar a 2018 e, pela paralização, Lula, até lá, pode não estar livre ou de “ficha limpa”.

E o que quer que repitam insistentemente, sem o PT e sem a atuação de Lula (seja como candidato ou cabo eleitoral), a esquerda – qualquer esquerda – não terá candidato eleitoralmente viável ou socialmente desejado em 2018. Nem em 2022.

Assim, de novo aparentemente, Judiciário e mídia fecharão o ciclo democrático e uma nova hegemonia surgirá.

As quases três décadas da Constituição “cidadã” de 1988 se transformarão em mais um hiato, uma ilha num mar de golpes ilegítimos, situações de exceção e estados de sítio, estes sim, a constante de nossa história republicana.

E aí, o sonho quimérico das classes médias sedentas de sangue petista irá fatalmente ser desfeito. Não haverá mais o inimigo público. Os inimigos serão então os seus próprios direitos, aparentemente entendidos como privilégios.

O ledo engano onírico durará até o momento em que o arbítrio se generalizar, o que sempre há de acontecer quando a democracia e o Estado de Direito estiverem em sucumbência.

No sonho fugaz daqueles que nutrem – na desmedida alimentada pela mass media –, uma sede de status e de  reconhecimento diretamente inversa à ascenção social das classes subalternas, a democratização das acusações vagas, dos processos sem defesa e das condenações sem prova não estará na conta.

Seremos todos acordados pela realidade canina dos governos de fachada, dos salvadores da pátria de ocasião e dos interesses escusos que não precisarão mais dizer o nome nem dar mais satisfação. Aí, sim, a corrupção campeará sem limite. Como no velho filme de Schwarzenegger, em que o personagem, depois de um implante de memórias falsas, começa a se lembrar de quem realmente era. Mas aí a vaca já tinha ido para o brejo. Ou não.

3 comentários sobre “Total recall, ou: quem será o futuro vingador do Brasil?

  1. Prezado Rogério

    Não vejo o futuro tão pessimista assim:

    1 – Em 36 anos de petismo, uma semente progressista foi plantada em nossa sociedade. Apesar de vermos o establishment tentar destruí-lo, não será tão fácil assim, pois a raiz é profunda; e um exemplo claro foi dado pela juventude daqui de São Paulo, (molecada de 15 16 e anos – sem cor partidária), fizeram o governador tucano recuar no fechamento das escolas. Isso já é resultado de uma nova militância nascendo!

    2 – Radicalizando, vejo também a Lava Jato, como sendo uma operação petista, pois antes dela, só o partido estava pagando a conta sozinho pela corrupção. A partir dela, entrou na baila, a “base alienada” do governo (PP e PMDB), ou tu acha que Lula e Dilma conseguiram governar até aqui como queriam, com uma constituição parlamentarista como a nossa? Nosso presidencialismo de coalizão é uma tragédia!!!

    3 – Não creio no golpe, pois os escândalos do HSBC / CARF / FIFA, foi a virada de mesa do Petismo, e levou as oligarquias do país a ira que estamos vendo hoje, possivelmente toda essa pantomima caminhará para um confronto ou luta de classes, como a história escreve.

    E o que penso.

    Abração

    Mário Mendonça

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    • Prezado Mário,
      Agradeço imensamente a sua fala. É no diálogo que a gente constrói um pais melhor.
      Sobre os seus argumentos, pondero o seguinte:
      1 – A juventude paulista contra Alckmin não é necessariamente politizada. Alguns são, outros não. Esta juventude precisa ser, como se diz na gíria, “disputada”. O que, em si, já é bom mesmo!
      2 – Lula não acha isto. Acredito que Moro também não. E a nossa constituição não é parlamentarista. O presidencialismo de coalizão não é uma característica especificamente brasileira, mas de todo mundo ocidental. Uma das suas características mais fortes é o controle quase total da iniciativa de projetos de lei.
      3 – Na história do país, todo conflito de classe terminou em composição e/ou derrota das classes populares. Acredito que este é o nosso futuro próximo: composição (infelizmente) ou derrota das classes populares (pior ainda).
      Abraço fraterno!
      Rogerio

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      • Prezado Rogério, Bom dia

        Agora sou eu que agradeço vosso parecer! É prazeroso essa interação.

        Pra concluir, o que vejo é Lula canalizando os problemas do governo para desviar o foco da fragilidade e a miopia que é o governo descarrilado de sua pupila. Mas substitui-lo por quem?

        Não sei se ele aguentará carregar esse sofrimento por tanto tempo…!!!…

        Abração

        Mário Mendonça

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