Por que Paris?

bataclan

Por Rogerio Dultra dos Santos

A cor do terror é vermelha, mas o terror não tem raça, origem ou fundamento racional. O terror não tem um objetivo político determinado para além do caos. O alvo que se apresenta é talvez a “regularidade” do “sistema”. Conceitos vagos, vamos combinar. Hobbes já dizia ser o terror “o medo sem se saber por que ou de que”.

Nesses termos, o terror pode ser sintetizado como a consciência de um mal que virá. E um mal integral é a destruição total. E hoje, como sempre, a aniquilação pela via do terrorismo é o extermínio de iguais. E é um ato de absoluta negação da própria civilização.

O terror acrescenta à morte violenta o caráter randômico, a imprevisibilidade, a surpresa – em seu pior sentido.

Registre-se, antes de tudo, que o primeiro terror moderno é o terror de Estado. O terror das penas futuras, das punições severas, da interrupção do ciclo da vida privada, ou seja: o terror das instituições, pela sua irracionalidade, gera desobediência.

O terror, de onde quer que venha, é, portanto, e em primeiro lugar, caótico. O terror desequilibra os contratos, os acordos, as expectativas, as paixões. Em resumo, o terror apaga a espontaneidade, a previsão e a vida.

Os indivíduos aprenderam – ou, pelo menos, deveriam ter aprendido –, depois de séculos de fronteiras, guerras, ditaduras e polícias que o maior e mais regular assassino terrorista é o Estado e seus instrumentos tentaculares.

Estes não somente produzem como fomentam o ódio e, inclusive, o horror em escala internacional. Afinal, as fronteiras são artificiais. As mortes, não.

E os indivíduos que se vêem provavelmente apátridas, inimigos, subversivos, criminosos, reagem ao terror de Estado, e produzem mais terror. É a lei da ação e reação. E é indefensável.

Esta lei taliônica, do “olho por olho, dente por dente”, é a certeza do fracasso – a famosa terra de cegos e banguelas.

O terror, essencialmente irracional, é, obviamente, injustificável. Que o digam os nossos negros e pobres, no maior massacre da história. Massacre diário e milionário em baixas.

Na França, como no mundo ocidental, pelo menos, todos foram Charlie, nos primeiros dias de 2015. Mas havia alguns que talvez não. Hoje, depois que milhares de exilados sírios bateram à porta da Europa, o terror do Bataclan provavelmente declarará uma ainda mais nova novidade: o terror não tem mais pátria.

As fronteiras fechadas não serão um subterfúgio justificável para sujeitos que nada tiveram com o desastre. Os sírios, argelinos, africanos, exilados, apátridas, todos que ali permanecem desde sempre serão apenas bodes expiatórios na sanha extremista que se seguirá à tragédia. O “estado de exceção”, não se enganem, nasceu na França.

É importante lembrar também que a falta de pátria não significa a existência de organizações terroristas desvinculadas formalmente do poder nacional, como a Al Qaeda ou o “Estado” “Islâmico”. Poderá, sim, expressar a assombrosa participação e presença de iguais apertando o gatilho. Não se surpreenda se jovens europeus sejam investigados ou identificados como suspeitos ou responsáveis diretos pela tragédia.

O terror internacional, a partir deste mundo pós-11 de setembro, será tão mais perverso que se travestirá da cor local. Assim, não serão as peles morenas, muçulmanas, a se perseguir. Serão eventualmente – randomicamente – nacionais os que aderem à ideologia fundamentalista e operam as máquinas da morte. Muito mais complicada a repressão, a prevenção.

A lógica a ser imposta por este terror pós-moderno, é a lógica nazista do controle total. Todos serão suspeitos, pois as distinções de raça, cor, estrato social, educação não serão mais filtros retóricos ou justificatórios da exclusão e do extermínio das diferenças. O novo terror extermina as diferenças. Todos podem ser terroristas, todos podem ser aterrorizados.

Assim, esta tragédia, esta guerra provavelmente constante, nos remete, surpreendentemente, para um signo quase universal. O Bataclan, esta casa de shows francesa inaugurada há 150 anos, é um patrimônio cultural que pode nos calar fundo.

O ponto é o seguinte: o terror de ontem foi randômico apenas em certa medida. Quis atingir todo o mundo civilizado.

Afinal, no Brasil, quem não leu, não viu a novela, não assistiu Gabriela, de Jorge Amado? O bordel de Ilhéus – o nosso Bataclan, hoje local turístico recriado à imagem e semelhança dos traços do romance baiano – funciona no imaginário cultural brasileiro como o lugar da luxúria, mas da luxúria paga nos vinténs da exploração.

Sejamos duros. A retidão operando aqui como chave de interpretação de uma realidade lamentável sob qualquer ângulo.

Como na sua origem francesa, o Bataclan da imaginação de um dos nossos maiores literatos se apresenta como o local do tráfico sexual, da afirmação da superioridade aristocrática, da marca da distinção social e econômica entre cidadãos e sujeitos e sujeitas disponíveis para a troca, venda e aluguel.

O Bataclan – o nosso e o original – sempre fez operar um simbolismo de opressão, um colonialismo racista, a rediviva de um status aristocrático anacrônico – mas pulsante –, uma lucratividade fácil em cima de parcelas frágeis da população invisível e fragilizada cultural e economicamente.

A barbárie do Bataclan não é uma novidade que estala nas nossas telas de TV simples e somente por conta dos fundamentalistas. A barbárie do Bataclan dimensiona o tamanho de nosso débito secular com as opressões cotidianas com os povos oprimidos. Débito que a França está longe de quitar. O débito que o terror quer fazer explodir por todos os lados.

Então, sejamos solidários com nossos iguais, com aqueles que pereceram de forma estúpida pelas mãos de um terror estúpido. Mas sejamos conscientes que o problema está apenas começando a dizer o seu nome. Apresentação que nos deixa absolutamente subjugados a um futuro que os nossos Estados nacionais estão longe, longe, de desejar entender e querer evitar.

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