Corrupção, História e Política

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Por Paulo Cavalcante

Muita gente não compreendeu que, no bojo de minha pesquisa sobre o que chamei de “a prática social do descaminho”, isto é, o conjunto de ilicitudes praticadas em torno da evasão de impostos e do comércio de contrabando, por exemplo, jamais pretendi dizer que tudo era roubo e corrupção na América portuguesa. Mas exatamente este juízo moral está na cabeça de muitos leitores que acabam projetando-o na interpretação de meus textos.

Guardadas as devidas proporções, é o que está acontecendo hoje em dia com as repercussões da operação Lava-Jato. Basta ver o que a grande imprensa tem publicado sobre a prática de lobby por parte do presidente Lula em benefício de empresas nacionais, particularmente a Odebrecht, em suas viagens internacionais. O curioso é que aqui tudo se mistura. O petista “comunista” é “corrupto” por atuar em favor do capital. Ora bolas, ou bem o sujeito é comunista e quer acabar com o capital ou é capitalista e atua em prol de sua acumulação.

Tudo se mistura de modo bárbaro como no comentário do Jabor sobre a estátua de Vladimir Putin nos moldes de um imperador romano. O sábio Jabor atribuiu isso, parcialmente, é bom sublinhar, a uma suposta herança stalinista. Um absurdo total. Essa herança é exclusivamente czarista. Czar vem de César. É claro que ele sabe disso… Portanto, atua de má fé, misturando propositadamente as coisas para produzir uma salada ideológica que se preste ao uso oposicionista por parte de um senso comum despolitizado, parcialmente letrado e raivoso.

Voltando ao ponto inicial, o juízo moral contra a corrupção não ajuda em sua compreensão enquanto fenômeno social, muito pelo contrário, obscurece-a e desvia o estudioso do alvo. Com o juízo moral, a prática da corrupção decorre unicamente das supostas falhas morais dos agentes, de suas falhas pessoais, por assim dizer, e não do sistema de relações sociais, econômicas, políticas e culturais no qual estão inseridos e com o qual interagem. Este final é importante para os críticos precipitados de plantão: “e com o qual interagem”. Não estou dizendo que a “culpa” é do “sistema”! Primeiro, não usaria jamais a palavra “culpa”. Segundo, também não utilizaria “sistema” isoladamente tal qual uma entidade supra-social todo poderosa e que descarta a atuação individual e coletiva dos agentes ou que, por outro lado, inocenta todo mundo. Não, essa salada não está na minha cabeça. Pode estar na cabeça de muitos leitores, mas não na minha.

Penso que o ponto de vista mais objetivo para compreender a prática de ilicitudes está diretamente vinculado à capacidade do intérprete estudioso de promover o jogo relacional e dialético entre os agentes e o contexto (social, econômico, político e cultural) no qual estão inseridos. Nenhum desses agentes nasceu vocacionado para a prática de “maldades” nem de “bondades” assim como os próprios contextos são complexos e enganosos, pois “protegidos” por distintos véus difíceis de se penetrar e com os quais facilmente nos enganamos.

Para concluir com o presente, o Jabor e a grande imprensa, longe de contribuírem para a compreensão do problema da corrupção, têm servido com determinação ao propósito de produzir véus para serem utilizados na luta política na qual estão engajados. E com isso não estou absolvendo ninguém, mas também não estou condenando ninguém de partida. Desde quando contribuir para o desenvolvimento dos negócios das empresas nacionais é crime numa sociedade burguesa e numa economia capitalista globalizada e altamente competitiva? Se assim for, vão ter de prender todos os presidentes dos Estados Unidos.

De minha parte, gostaria de ter visto o Lula mais empenhado na defesa e na conquista de direitos sociais para as camadas populares assim como na sua conscientização política e bem distante das seduções do capital. Mas será que, pensando a política como a arte do possível e em sua interação com os demais agentes produtores deste estado de coisas, bem, será que Lula não jogou o jogo possível? Será que nesse jogo jogado por Lula não houve relevantes conquistas que geraram enorme reação e ódio? Será que, uma vez pensando assim, não é possível ver, então, um sucesso razoável nesse jogo de alto risco? Por outro lado, não são esses próprios agentes, representantes e criadores deste status quo brasileiro historicamente injusto, que agora manejam o discurso moral para fulminar aqueles que conseguiram promover a eliminação da fome e a ascensão social de milhões de pessoas? Onde residirá o mistério da disposição e fortaleza do atual presidente da Câmara de Deputados para atacar moralmente os governos do PT, o próprio PT, o ex-presidente Lula e a presidente Dilma senão na conivência conveniente das forças políticas de oposição com a atuação de agentes nutridos por longos anos nestes jogos de ilicitudes e espertezas de toda natureza que agora são denunciados no Ministério Público Federal? E, quanto à sociedade, será esta assim tão impoluta moralmente como parece se apresentar? E, se assim for, por que então elegeu tantos políticos, nos mais variados partidos, cuja estatura moral não ultrapassa as dimensões de um protozoário flagelado e parasita? Teria, então, a própria sociedade a moral necessária para fazer um julgamento moral?

A operação Lava-Jato julga nos oferecer uma faxina e, para ser sincero, é apenas isso o que tem a nos oferecer. A classe média adora uma faxina! Alguns podres cuidadosamente escolhidos serão eliminados, especialmente aqueles que tiverem o potencial de saciar o clamor público forjado no moralismo hipócrita e cínico da sociedade. Veja, o desinfetante multiuso e não a revista, não tem força (nem moral) para remover o problema pela raiz. Isso não se faz com uma faxina. A faxina remove apenas o que incomoda na superfície e deixa um breve cheirinho de limpeza. Mas quem decide o que incomoda e o que não incomoda? Talvez os mesmos que decidiram que grupos de jovens negros descalços e sem documentos não podem frequentar a praia de Copacabana… Ou, quem sabe, nem todos. Talvez os mesmos que se opõem a programas sociais como o Bolsa Família… Ou, quem sabe, nem todos… Não sei ao certo. Vou pensar nisso. O que sei é que tem muita gente por aí gritando certezas que julgam ser muito certas. Eu tenho lá minhas certezas, vocês podem entrevê-las neste longo texto, mas tenho também muitas perguntas e dúvidas que tensionam minhas certezas. Ah, por fim, também não gosto de gritar nem de gritos. Mas isso é sequela de quem leu Freud e de quem estudou a independência do Brasil que, segundo dizem por aí, foi proclamada com um grito. Tudo muito autoritário…

Um comentário sobre “Corrupção, História e Política

  1. A “Independência” foi um “bom negócio”. Mais para Inglaterra e Portugal do que para o Brasil (e seus novos “donos”). “Seus filhos… Erravam cegos pelo Continente… Levavam pedras feitos penitentes… Erguendo estranhas catedrais…”

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