Marta, Corrupção e golpe

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Por Rogerio Dultra dos Santos

Há alguns anos presenciei o processo de conversão de um conhecido, do candomblé ao pentecostalismo. Como tinha um histórico moralmente questionável segundo os critérios fundamentalistas da Igreja que passou a freqüentar, ele era mais rigoroso que os seus irmãos de culto na incorporação do modo de vestir, mais cioso com as regras da casa e mais preocupado em adequar-se à nova situação do que aqueles que já nasciam imersos na cultura assembleísta. Para ele, a sua conversão não somente deveria ser total, como tinha que significar publicamente uma adesão radical e inquestionável. Isto se expressava, especialmente, no repúdio violento aos praticantes das religiões afro-brasileiras.

Obviamente, situação psicológica semelhante não acontece nem acontecerá com todos aqueles que estão optando por sair do PT para legendas distintas, seja à direita, seja à esquerda. Mas no momento em que o partido sofre um processo disseminado de criminalização e de demonização, é interessante perceber de onde brotam e como se estruturam os discursos mais antagônicos e que mais criticam o prato que desfrutaram em tempos de bonança.

É nesse sentido que, dentre tantos que pularam e pularão do barco em breve, o caso da senadora Marta Suplicy é um exemplo diferenciado.

Ao formalizar sua entrada no PMDB neste final de semana, Marta (agora Ex-PT) foi vítima de uma avalanche de gozações nas redes sociais por conta de suas declarações. A fala mais impactante foi dizer “Quero um país livre de corrupção e o PMDB é o meu lugar”, ao lado de indiciáveis por corrupção, como o Presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. Até o site de pilhérias, o Sensacionalista,  deu a notícia como uma piada real, sem nenhuma invenção, como seria de praxe.

Se Marta não fosse um quadro altamente qualificado, se poderia usar da metáfora da síndrome de Estocolmo – quando o “seqüestrado” se enamora pelos seqüestradores e reproduz apaixonadamente o seu discurso. Pelas declarações da Senadora, o caso parece ser mais de cálculo racional do que exclusivamente de emoções descontroladas.

Em outra fala surreal da Senadora em sua filiação transparecem uma compreensão do quadro político e a tomada de posição. Ela afirmou que o Vice-Presidente do Brasil, Michel Temer, neste contexto de crise política, tem condições de unificar o país.

É surreal porque repercute o movimento de articulação política que colocou a suspeita sob o Vice-Presidente de que ele estaria se colocando como via de realização do golpe contra o mandato da Presidente Dilma Rousseff. Surreal principalmente por entender que Temer teria ainda esta força, mesmo depois de afastado da articulação política e da distribuição de cargos, e que a desestabilização do poder do Palácio do Planalto pode gerar qualquer coisa mais positiva do que o caos.

Então, a decisão se explicita. Sentindo os dias difíceis pelos quais passa o PT, alguns dos parlamentares do maior partido de massas do país resolveram disputar o mercado pragmático da “nova política” – a política dos puros e ilibados, acima das disputas reais e “sempre” corruptas pelo poder.

Visando sejam as eleições de 2016, sejam os tão sonhados ministérios, políticos que têm visto os seus votos escassearem por variados motivos dentro do Partido dos Trabalhadores – ou esperam que isto aconteça nas eleições –, escolhem o caminho aparentemente mais fácil para a sobrevida de seus projetos personalistas.

E é na crise que se tem a real dimensão das lealdades de ocasião ou das lealdades viciadas pela bonança.

Voltando à senadora, ex-petista. De tão estapafúrdias e antitéticas à realidade são as falas de Marta, que o seu objetivo profundo provavelmente é o de produzir uma ruptura discursiva e simbólica com a sua trajetória dentro do PT.

Seguindo a hipótese de que a conversão de Marta ao PMDB de Cunha e Temer deriva não só de ressentimento – mas, principalmente, de cálculo pragmático – fica patente que ela quer se “limpar” da marca “vermelha”.

A sua pretensão é reconstruir a sua imagem como mais palatável para um contingente conservador de eleitores, que se avoluma especialmente em São Paulo. Assim, ela não quer disputar a base eleitoral de Fernando Haddad (atual Prefeito de São Paulo, do PT), mas sim as de todos os demais candidatos que representam o espectro da direta no cenário de candidatáveis à prefeitura.

Assim, como a então Senadora Marina Silva (REDE), que saiu do PT em 2009 por ser preterida como candidata do partido à Presidência da República, Marta também é lida por todos como interessada numa candidatura à prefeitura de São Paulo em 2016. Este caminho foi fechado dentro do partido pela administração de Haddad e por sua candidatura natural à reeleição.

Portanto, ninguém espere que Marta Suplicy figure entre os ex-petistas que permanecem, mesmo em outras agremiações partidárias, eventuais aliados ao partido ou ao governo. Marta já representa, em qualquer parte do PMDB em que figure, uma opositora sistemática a qualquer elemento estético ou discursivo que a ligue à sua antiga casa. E este é um processo de transmutação e de adesismo radical, quase religioso.

Marta parece acreditar que quanto maior for a sua distância à sua velha imagem, tanto maior poderão ser os seus dividendos em termos de aceitação política e eleitoral pela direita. Enquanto os fundamentalistas religiosos acreditam piamente que são os verdadeiros detentores da chave do céu, a senadora crê que a sua transmutação a cacifará para os vôos políticos traçados pelo destino que imagina para si.

Nesse sentido, Marta é uma espécie de paradigma, a ser eventualmente estudado daqui a alguns anos como um “tipo ideal” de conversão voluntária equiparável às de natureza religiosa. Nela, embora permaneça a crença do sucesso, transparece um outro modelo de fundamentalismo. É uma readequação “espiritual” radicalizada por sinalizar ser de cepa udenista, golpista, característica dos que não prezam pelas regras do jogo democrático.

Daí a sua fala sobre a corrupção a ser extirpada da política pelo PMDB (hã?) e sobre o Vice-Presidente como força da conciliação nacional (hã?).

O trágico deste movimento é que Marta acredita fielmente em sua entronização, numa espécie de fé cega que o PMDB valorizará os seus préstimos. E isto como se o partido estivesse interessado em outra coisa que não o cálculo pragmático – da velha política – ou em uma incidente envergadura eleitoral, ambos dividendos que, curiosamente, ela mesma faz questão de renegar.

Nesses termos, o repúdio de primeira hora contra a sua antiga casa, propagado aos quatro ventos pela senadora, se transforma não na construção da mudança que diz desejar para a política, mas um sinal do desvario fundamentalista de novo-convertido.

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