Crime, imprensa e dissimulação

00000morguePor Paula Velloso

Muitas pessoas no mundo inteiro sentem-se atraídas pela leitura de romances policiais. A tal ponto que este tipo de literatura é um dos mais vendidos de todos os tempos. Ser um gênero tão popular, isto é, muito comprado, muito lido ou muito transformado em roteiros de cinema, é algo que tem que ver com o que caracteriza a literatura policial: um crime e alguém disposto a desvendá-lo. Mas não é só isto. Nem toda narrativa que apresenta um delito e um detetive pode ser considerada romance policial. Há uma forma de articula-la que é específica da policial: no ponto de partida e na linha de chegada do romance devem haver, respectivamente, um enigma e uma forma para seu esclarecimento.

Quem inventou essa maneira de escrever foi o americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Poe aproveitou o público leitor criado pelo surgimento dos jornais populares. Vejam, nos EUA, assim como na Europa, as máquinas exigidas para a modernização da imprensa, a circulação de profissionais, procedimentos, padrões estéticos e recursos comunicativos, foram frutos da reformas democratizantes de lá. Tais reformas puseram no horizonte empreendedor um mercado inexplorado, o do gosto popular, cuja existência se deveu ao território socialmente mesclado da cidade.

Tem lugar aqui uma brevíssima digressão sobre um dos efeitos da forma da imprensa popular. O mercado da imprensa popular garantiu à imprensa democrática uma existência distante das redes de atração estatais. O profissional da informação pôde perceber-se como um ator político, ao mesmo tempo que, em razão de não depender do Estado para desempenhar sua atividade, pôde reivindicar para si uma suposta neutralidade, ou mesmo apoliticidade. Curiosamente, a astúcia da imprensa, enquanto instituição democrática, reside justamente no aproveitamento do que é anseio social para vender seu produto e continuar a existir e desempenhar seu papel com isenção. Até hoje, o descaminho da imprensa é a captura daquele anseio.

Sobre isso, é importante dizer que jornal popular introduziu um tipo inédito de linguagem jornalística. Trata-se de um misto de informação e ficção, algo que prende o leitor e faz com que ele compre o jornal no dia seguinte. Por seu turno, a fantasia apresentada como verdade faz com que o jornal caminhe no fio tênue que separa a imprensa popular da democrática. Essa linguagem não é feita só de forma. Seu conteúdo é composto de alimentos para curiosidade com a desgraça alheia, de lacunas que mantenham mistério sobre a razão dessa desgraça e de incitação ao desejo de reparação. Seu contexto é a realidade dos conglomerados industriais, da insegurança da população quanto a esse contexto, que é novo, e quanto a sua integridade física.

Este é o material bruto do trabalho de Poe. O autor aproveita o público do jornal popular, insere a narrativa no contexto da cidade industrial e sublinha a desconfiança da população com relação à polícia (então composta majoritariamente de ex-infratores). Embora ocupado com produzir ficção, Poe é um fascinado com as ideias positivistas e com a concepção de homem racional que ela engendra. Não é por acaso que Assassinatos na Rue Morgue começa com uma caracterização da matéria de que deve ser feito o investigador. A longa descrição da a capacidade analítica de Dupin compõe o romance como a afirmação da autonomia de um campo precede a análise de uma ciência nova, como ocorre com a Sociologia, contemporânea de Poe.

Pelas mãos de Poe, tivemos acesso ao silogismo da moderna narrativa policial: o criminoso é um resultado da cidade moderna; a cidade moderna é o futuro da vida social; o criminoso é um inimigo social. Mas não se trata de narrar cenas violentas e rituais expiatórios e vingativos. O moderno Poe põe no mundo um investigador amador que tem menos apreço pelo criminoso ou pela retribuição do que pelo mistério que circunda o crime. Auguste Dupin “coleciona  enigmas como os outros colecionam objetos”.

Quase de maneira análoga, o modo da imprensa popular é o do aproveitamento do duplo desgosto moderno: no século XIX, todos já sabiam que ninguém ficaria nem mais rico nem mais moral. Quase, porque a forma da imprensa é a da dissimulação de sua dimensão de ficção e não a da afirmação de seus protocolos. Enquanto conta os casos e divide seus desfechos em fascículos, entra na vida popular e passa a produzir a sua própria demanda. Precisa de episódios sinistros e de um vilão, mas não conta que está só tentando vender jornal. E, quando faz isto, quando não se compromete com o que orienta a pena, a notícia tem menos preocupação com a verdade do que o romance policial.

Niterói, 2015.

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