Nada importante aconteceu hoje

Dilma e eduardo cunha

Por Theófilo Rodrigues

 

Consta a história de que no diário do Rei George III havia apenas uma única frase escrita na página referente ao dia 4 de julho de 1776: “nada importante aconteceu hoje”.

Provavelmente o monarca inglês não tinha recebido ainda a informação de que do outro lado do Atlântico a burguesia colonial havia promulgado a histórica Declaração da Independência dos Estados Unidos.

Dois séculos depois, no ano de 1989 o jornalista comunista Bernardo Joffily escreveu o clássico Bastião Albanês. Com o peso de ter vivido alguns anos na Albânia, o livro de Joffily demonstrava como a experiência socialista daquele país duraria ainda muitos anos e poderia ser expandida para todo o mundo. Pois bem, não se passaram dois meses após a publicação do livro e o regime de Enver Hoxha e Ramiz Alia caiu.

Certamente os dois casos corroboram a inconveniência de um mundo sem internet. Ou, no mínimo, a imprudência na interpretação dos acontecimentos da hora presente.

Aos dirigentes da política brasileira atual não cabe a desculpa de estarem interpretando acontecimentos ocorridos do outro lado do Atlântico. A distância que separa o Congresso Nacional do Palácio do Planalto é sabidamente bem menor.

A crise política em que se meteu o governo federal e que vem desde o início de 2015 alcançou no dia de ontem seu ponto mais alto. Dois importantes partidos de sua base aliada literalmente “pediram para sair”.

Juntos PDT e PTB contabilizam 44 votos a menos para a já desmilinguida base aliada na Câmara dos Deputados.

Inacreditavelmente o impeachment vem à galope sem que haja nenhum sinal de mudança no rumo dos acontecimentos por parte dos principais interessados.

Como bem disse o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) é chegada a hora de “zerar o jogo”.

Uma reconfiguração dos ocupantes dos ministérios tornou-se iminente com a ampliação dos espaços de poder para o PMDB em detrimento do PT de modo a enfraquecer a influência negativa de Eduardo Cunha sobre a bancada.

É preciso otimizar aquilo que a ciência política definiu como índice de coalescência do governo, ou seja, a proporcionalidade entre votos no Congresso e espaços de poder nos ministérios.

Pode ser que essas medidas não precisem ser mantidas até o fim do governo em 2018; pode ser que a recuperação econômica prometida para 2016 volte a trazer alguma estabilidade política.

Contudo, no atual momento de tormenta é preciso saber mexer as velas. Ou esse mesmo governo pode nem chegar ao porto desejado em 2016.

Espera-se ainda que no futuro nenhum historiador encontre no diário da presidenta Dilma Rousseff referente aos dias iniciais de agosto de 2015 a ignóbil frase: “nada importante aconteceu hoje”.

Theófilo Rodrigues é cientista político.

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