Venezuela é a nova Cuba e o Brasil está na mira

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Por Rogerio Dultra dos Santos

O interesse dos EUA na Venezuela indica como o Brasil é sensível a intervenções não convencionais. A receita do embargo econômico, por exemplo, vem sendo utilizada com sucesso desde os anos 60 na América Latina. Depois de 50 anos de tentativas frustradas de invasão e de embargo norte-americano, Cuba, sem riquezas naturais e finda a oposição ideológica entre o socialismo soviético e o capitalismo ocidental que a sustentava, transformou-se em terra arrasada.

O fim do embargo à ilha, anunciado em dezembro de 2014 pelo presidente Barack Obama, aponta que os interesses geopolíticos dos EUA mudaram de direção. Já faz algum tempo que estes se voltaram para a Venezuela chavista, presidida hoje por Nicolás Maduro.

Embora existam relações comerciais bem desenvolvidas entre dois países, para o presidente Obama a Venezuela se transformou numa “ameaça extraordinária e inusual para a segurança nacional e política exterior” dos Estados Unidos. E há previsão do aprofundamento do embargo econômico aprovado pelo Congresso, visto a declaração de estado de “emergência nacional” feita por Obama há duas semanas. Qual o motivo para tanto alarde? Afinal, não deveria ser usual o presidente solicitar poderes extraordinários que autorizam restrições de direitos a cidadãos e estrangeiros residentes no país. As razões aparentes seriam porque a Venezuela teria mergulhado num ciclo de corrupção e abusos a direitos humanos.

O movimento preventivo dos EUA em relação à America Latina chama a atenção. A razão que justificou o desembarque de uma tropa de 4.000 soldados no Perú, por exemplo, foi o combate ao terrorismo. O bom-mocismo estadunidense está se derramando de forma aplicada e preocupante no continente Sul-Americano.

As razões profundas por trás dos pretextos protocolares compartilhados acima é bem mais prosaica: no caso da Venezuela, as maiores reservas de petróleo do globo. E o Perú fica ali ao lado da Colômbia, a um passo da República Bolivariana da Venezuela. É interessante, portanto, que o petróleo venezuelano passe a ser vital na situação problemática que os EUA enfrentam no Oriente Médio e na Ucrânia.

Assim, a instabilidade política da Venezuela após a morte de Hugo Chávez – que poderia ser uma questão política interna ou no máximo regional –, vem adquirindo ares de guerra fria. Uma novidade é o apoio explícito que a China e a Rússia demonstraram nas últimas semanas a Maduro. Chegou-se ao ponto de operações com mísseis e anfíbios na região, com a garantia de suporte militar em caso de invasão.

Mas o que o Brasil tem a ver com esta situação? O mundo assiste um conjunto de arranjos econômicos multipolares que fogem da influência e mesmo da participação norte-americana.

O caso do Brasil é emblemático, não só por estimular o avanço das relações comerciais no Mercosul, mas por articular uma rede internacional de financiamento ao desenvolvimento de países emergentes que evita o Fundo Monetário Internacional – o FMI –, através de um Banco com Rússia, Índia, China e África do Sul, o famoso BRICS. E o Brasil também tem petróleo. Muito petróleo.

O modelo de partilha das reservas do pré-sal destruiu as pretensões dos EUA de colonizar a exploração das reservas brasileiras somente pagando pedágio ao Estado. Este modelo, muito mais rigoroso que o proposto pela oposição, garante a propriedade do petróleo produzido ao Estado, além da necessidade das empresas pagarem royalties. O modelo defendido hoje pelo PSDB e por Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, é o de concessões: fatiam-se as reservas de petróleo e vendem-nas pelo melhor preço estimado. Este negócio bilionário, se implementado segundo o projeto da oposição é um dos elementos nucleares que mobilizam a atenção dos EUA para o Brasil.

Se a América do Norte tivesse condições políticas, poderia dizer e fazer com o Brasil o mesmo que está dizendo e fazendo com a Venezuela: há um ciclo de corrupção instalado e sérias violações a direitos humanos que justificam medidas de antagonismo ao país. Junte-se a notícia desta semana, segundo a qual os radicais islâmicos estão recrutando simpatizantes – células terroristas – e o quadro retórico para uma intervenção está dado.

Porque isto (ainda) não acontece? Basicamente porque o Brasil é um país continental e a estratégia para dominar economicamente continentes não é a pura e simples invasão. As elites precisam ser cooptadas e um eventual regime simpático ou mesmo submisso aos interesses estadunidenses só operaria sem ruídos no momento em que as oposições políticas fossem neutralizadas.

Qual seria o caminho para uma intervenção não convencional, então? Para além das forças militares, existem a cooptação de elites e a utilização da grande mídia e do judiciário como formas de ataque à estabilidade política.

A agenda geopolítica dos EUA em relação à América Latina é secular. Vargas, há 75 anos, recebia Roosevelt para garantir a exploração do aço brasileiro em troca do apoio aos Aliados na 2ª Guerra. Furado o primeiro poço de petróleo no final dos anos 1930, as elites políticas mergulharam Vargas numa crise política que forçou seu suicídio. O “mar de lama” instalado no Catete foi criado, alimentado e desenvolvido de forma sistemática pela imprensa udenista, tendo o jornalista Carlos Lacerda como figura de proa.

A vida também não foi fácil para os herdeiros políticos de Getúlio. Juscelino precisou da intervenção do Exército para garantir a posse na presidência e esteve durante todo seu governo ameaçado por golpes da direita. João Goulart, um estancieiro milionário, um dos maiores exportadores de carne bovina do país, foi acusado de comunista e derrubado pelos antigos tenentes, já generais. Estes fizeram sua trajetória no oficialato em estreito contato com a Doutrina de Segurança dos EUA: o princípio geral era que os generais da América Latina deveriam preparar as Forças Armadas para a resistência às insurreições nacionais comunistas. Nada de doutrina de guerra internacional. A competência militar deveria se voltar para a repressão interna.

Domados os países próximos e submetidos quase todos à ditaduras militares sanguinárias,o próximo passo foi a domesticação econômica. Passado o período de fechamento e repressão chancelada pelo Estado, a América Latina submergiu, nos anos 1990 à doutrina neo-liberal, de redução do papel do Estado na economia e de submissão ao capital especulativo internacional. Os nossos Fernandos cumpriram bem o papel. Furnas e Vale do Rio Doce, por exemplo, foram vendidas em troca de papéis podres. A Petrobrás quase foi privatizada.

A novidade da conjuntura recente foi a onda de esquerda que varreu o continente a partir de 2000. A agenda desenvolvimentista do segundo governo Lula, por exemplo, estabeleceu as bases de uma economia calcada na industrialização e na exploração racionalizada das jazidas naturais. Assim, a Petrobrás entrou no século XXI surpreendentemente protegida por uma legislação nacionalista.

Então, resta a pergunta: qual o papel das elites econômicas e da burguesia nacional, num contexto de forte apoio popular aos governos identificados com o mundo do trabalho?

A recuperação da agenda do combate à corrupção, a criminalização das esquerdas – que chamou atenção já nos anos 1990 com a campanha contra o MST – e o movimento golpista, contrário aos resultados eleitorais se somaram, galvanizando o entendimento das classes médias.

O problema é que esta orquestração, embora pareça ter atingido o PT de morte, não conseguiu (ainda) derrubar o governo Dilma, nem subverter o senso comum segundo o qual a Petrobrás representa um tesouro nacional, que deve ser cuidado, preservado e recuperado da sanha dos gatunos que a atingiram.

O Brasil vê hoje, como a Venezuela viu acontecer anos atrás, um processo de polarização política sem precedentes. Uma parcela da população entende ser correto sair às ruas pelo “fora Dilma”, pela intervenção militar e pela intervenção dos Estados Unidos (sic). Mas este não é um entendimento tão generalizado como se pensa. A pauta das classes médias pela honestidade e contra a corrupção é mais forte do que a pauta golpista. Desse modo, as instituições democráticas têm resistido, provando-se mais fortes do que alhures. Mas as ameaças permanecem.

O judiciário, nosso poder mais aristocratizado e menos democrático, cumpre o seu papel de criminalização. A usual criminalização da pobreza sendo acrescida pela novidadeira criminalização dos movimentos sociais e das forças políticas que têm impedido a ofensiva das elites ao Estado. Será esta uma novidade tão grande assim?

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